O Mercúrio retrógrado eterno das redes sociais: posicionamento de trabalho autoral sem se perder na internet
- Jesss Godoy

- 19 de mar.
- 2 min de leitura
Divulgar um trabalho autoral nas redes sociais pode virar uma experiência de desgaste quando a plataforma recompensa permanência, reação e movimento, e não necessariamente compreensão.
O objetivo de quem divulga seu trabalho nas redes sociais, e depende dessa circulação para sustentar o próprio trabalho, é que a mensagem chegue, faça sentido e produza algum tipo de efeito fora dali: uma conversa, uma troca, uma decisão, um encontro, uma lembrança útil.
A plataforma quer outra coisa.
Ela quer manter a pessoa ali dentro.
Divulgar um trabalho sério na internet muitas vezes dá a sensação de tentar acomodar uma coisa complexa num lugar que não foi desenhado para isso. Há um descompasso real entre o que se quer comunicar e o que o ambiente recompensa.
A energia investida nessa tradução costuma ser desproporcional ao retorno. A sua comunicação precisa atravessar um território arquitetado para favorecer dispersão, choque, confirmação de viés, reação imediata e permanência na tela. Nem sempre compreensão. Nem sempre conexão. Às vezes, só movimento repetitivo de rolagem infinita.
A sensação que fica é a de que tentar comunicar com profundidade e intencionalidade nas redes sociais é se deparar com um ciclo eterno de Mercúrio retrógrado. Toda hora a mensagem se perde. Chega a lugar nenhum.
Já as métricas da plataforma ajudam a criar a falsa impressão de que elas dizem alguma coisa definitiva sobre o seu trabalho. Curtidas, alcance, visualizações. Como se isso bastasse para medir a qualidade de um projeto, a seriedade de uma pesquisa ou a densidade de uma prática. Mas essas métricas medem outra coisa: o quanto o conteúdo colaborou com a lógica do lugar onde ele apareceu.
E isso confunde.
Faz parecer que a sua mensagem não tem valor quando, muitas vezes, ela apenas não alimenta os critérios que a plataforma privilegia. Nem toda dificuldade de circulação diz algo sobre o conteúdo, principalmente quando a lógica da rede é aceitar a sua comunicação somente até o ponto em que ela não atrapalha o objetivo de funcionamento da rede.
Traduzir a complexidade de um trabalho sem empobrecê-lo custa energia. E essa energia vai embora com facilidade quando a rotina do canal de comunicação pede resposta rápida, adaptação contínua e presença permanente. Em vez de ficar na criação, na pesquisa e no cuidado com o ofício, nossa energia passa a ser sugada na sustentação de uma vitrine que cobra exposição o tempo todo.
Quem comunica um trabalho sério nas redes aprende, aos poucos, a fazer acordos consigo para não enlouquecer. A plataforma pode ser inevitável, pode até ajudar a dar circulação à sua mensagem, mas ela não foi feita com os mesmos objetivos do que você quer sustentar, que é a materialidade do seu trabalho e da sua vida fora dela. Por isso, nem sempre o retorno que ela mostra é a medida mais justa do que você fez.
Não se esqueça nunca disso!
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A sua energia precisa estar na execução do seu trabalho, não no desespero de tentar explicá-lo. Se você quer dar contorno à sua comunicação e parar de recuar na hora de apresentar o que você faz, vem pra BASE.
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